desterro
os dias me sedimentam
sofro de desterro por antecipação
a voz do vento
sopra armadilhas de quereres
me levanto
e recolho do chão
os pedaços
de outro alguém
o encontro
Embarquei para uma cidade que só conhecia de ouvir falar. Não tinha nada a perder. Só queria me perder um pouco para poder me encontrar. Buscava um lugar onde a vida fizesse um pouco mais de sentido. Cheguei na rodoviária às 11 da noite. Fazia frio. E minha companhia naquele momento era um cachorro que estava deitado no chão e uns poucos insetos que insistiam em me importunar. Só me restava sentar e esperar até que o ônibus chegasse. Nesse meio tempo sentou-se ao meu lado uma senhora acompanhada de uma criança. Deixava transparecer uma certa timidez. Ensaiou bastante e, mostrando seu bilhete, me dirigiu a palavra perguntando se aquela era a plataforma de embarque correta. Disse que sim e que o ônibus estava para chegar. Perguntei para onde estava indo. Disse que ia levar seu filho ao médico. Perguntei o que tinha o menino. Me respondeu que era doença ruim.
palavras
lufadas de palavras
me arrebatam
para além da percepção
abro minhas asas
secretas
e flutuo
com o deleite
inconsciente
de estar
sentado ao sol
com a mente aberta
para arejar
e no final
eu
e você
e pensamentos
soltos
vagando
e as asas a bater
e a brisa a soprar
poesias
um dia
hoje o dia começou sem mim
o dia amanhaceu
eu não
o dia brilhou
eu não
o dia choveu
eu não
o dia entardeceu
eu não
o dia acabou
eu não
mas quando a noite chegou
clareei

